ADE-RJ (algumas matérias)
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Por Sergio F. Aleixo
EM DEFESA DO ESPIRITISMO (*)
(*) Texto motivado pelo artigo de Carlos Baccelli na Revista Espiritismo e Ciência
n. 62, a propósito da suposta evolução de Jesus “em linha reta”.
Aprendizes em Espiritismo sabem que o primeiro critério da verdade é submeter as comunicações dos espíritos ao controle severo da razão, do bom-senso e da lógica. Só espíritos enganadores, que não podem senão perder com este exame sério, é que evitam a discussão e querem ser acreditados sob palavra. (O Que é o Espiritismo, 99.)
Emmanuel é um enganador? Fica desagradado com os que lhe questionam os ditados? Diz que estes “coaxam”, como sapos e rãs? Ora! É da essência mesma da proposta kardeciana de fé raciocinada que se façam análises dos informes espirituais. Ninguém se torna “agente das Trevas” por isto.
O Livro dos Médiuns preceitua que “o melhor deles é aquele que, simpatizando somente com os bons espíritos, tem sido o menos enganado”, assim como assegura que, “por muito bom que seja, um médium jamais é tão perfeito, que não possa ser atacado por algum lado fraco” (Cap. XX, 226, 9-10).
Chico Xavier aprova ser considerado exceção aos princípios da Doutrina que sempre amou e da qual figura como destacado adepto? Aceita que o considerem infalível e suponham inquestionável a sua obra?
Aprendizes em Espiritismo igualmente sabem que o segundo critério da verdade está na concordância, na universalidade do ensinamento espiritual, no fato de um princípio ser ensinado em vários lugares, por diferentes espíritos e médiuns estranhos uns aos outros, “e que não estejam sob a mesma influência”. (O Que é o Espiritismo, 99.)
A única expressão de universalidade deste ensino espiritual sempre foi a Obra de Kardec. Depois dela, tudo mais são opiniões isoladas. Na falta em que nos encontramos, desde 31/03/1869, de um foco legítimo de apuração e controle, tais opiniões devem sofrer detidas avaliações lógicas, firmemente amparadas nos ensinos codificados pelo mestre lionês.
Sobre o Cristo, o que diz a Doutrina? — lEsprit pur par excellence. Em seu idioma, assim Kardec definiu Jesus, na nota à dissertação IX do cap. XXXI de O Livro dos Médiuns: o Espírito puro por excelência. Portanto, de “superioridade intelectual e moral absoluta em relação aos espíritos das outras ordens” (O Livro dos Espíritos, 112).
Em Espiritismo, todos os seres têm um mesmo ponto de partida e um mesmo ponto de chegada (A Gênese, I, 30). Jesus não foi exceção. Mas quem poderia saber se cometeu erros na estrada evolutiva? E que importância afinal teria agora isto, se os que chegam ao grau supremo, mesmo passando pelo mal, são contemplados com idêntico olhar por Deus, que a todos ama igualmente? (O Livro dos Espíritos, 126.)
Possível é que o Mestre seja dos poucos que, “desde o princípio, seguiram o caminho do bem” (Ob. cit., 133, 124). Mas O Livro dos Espíritos chama isto de evolução “em linha reta”? O que nos autoriza a supor que esta expressão equivale ao que ali ensinou a Obra-Base? O que quer dizer: “desde o princípio”?
Cautela! Os termos usados em O Consolador pertencem aOs Quatro Evangelhos, de Roustaing: “avançar com passo firme e em linha reta para a perfeição” (Tomo III, 255). Este livro defende uma progressão espiritual que dispensaria a vida na matéria aos que só fazem o bem nos mundos fluídicos próprios à humanização da alma, chamados ad-hoc. A encarnação não passaria de castigo aos culpados que por lá faliram: seria a “queda”.
Todavia, a Doutrina Espírita ensina que têm necessidade de encarnação os que, “desde o princípio”, optaram pelo bem; todos são criados simples e ignorantes e se instruem mediante as lutas e tribulações da vida corporal; Deus, que é justo, não podia fazer felizes a alguns, sem penas e trabalhos, portanto, sem mérito (O Livro dos Espíritos, 133). Assim, “desde o princípio” não se refere só a mundos fluídicos, mas também corpóreos, quando o espírito começa a discernir o bem do mal e, no caso, passa a escolher sempre o primeiro. Diversamente, pois, do conceito rustenista da evolução em linha reta, que dispensa a vida na matéria, razão pela qual teria sido fluídico o corpo de Jesus, doutrina repelida por Kardec (A Gênese, XV, 66.)
Também se percebe afinidade com teses rustenistas quando se lê que, exceto Jesus, somos “espíritos que se resgatam ou aprendem nas experiências humanas, após as quedas do passado” (O Consolador, 243). As quedas pretéritas, assim atribuídas tanto aos que “aprendem” como aos que “se resgatam”, é uma generalização errônea, pois “a expiação serve sempre de prova, mas a prova nem sempre é uma expiação” (O Evangelho Segundo o Espiritismo. V, 9).
Portanto, nem todos os que aprendem em meio a provas têm erros a resgatar. Se O Consolador advoga que todos os têm, confirma as quedas que precipitariam na matéria os falidos. Isto mais se evidencia na idéia de O Consolador sobre a provação: é para o “rebelde” e “preguiçoso”, e a expiação, para o malfeitor que comete um crime (246). Quanto à expiação, vá; no entanto, considerando que é impossível chegar à perfeição sem provas, seríamos, de antemão, rebeldes e preguiçosos pelo simples fato de sofrê-las?
Outra prova do rustenismo de O Consolador está na pergunta sobre a queda do espírito. Diz que a alma é “colocada por Deus no caminho da vida como discípulo que termina os estudos básicos” (248). Como pode ser isto se O Livro dos Espíritos leciona que, em sua primeira encarnação, a alma “ensaia para a vida”? (190) Trata-se, pois, do início dos estudos básicos da alma, não de seu término; a menos que os haja iniciado alhures, nos mundos ad-hoc de Roustaing.
O Livro dos Espíritos preceitua que “é necessário rejeitar esta idéia de que dois espíritos, criados um para o outro, devem um dia fatalmente reunir-se na eternidade” (303-a). Mas O Consolador prega a existência de almas que teriam sido “criadas umas para as outras” (323); avança, e decreta que “o amor das almas gêmeas é aquele que o espírito sentirá um dia pela humanidade inteira” (326). A seguir, certifica que Jesus “enlaçou a humanidade inteira depois de realizar o amor supremo” (com sua alma-irmã?), mas considera “um paralelismo injustificável” condicionar o Mestre aos “meios humanos”, quando se cogita qual seria a alma gêmea de Jesus; ainda assim, apresenta-o como “a finalidade sagrada dos gloriosos destinos do espírito” (327). O paralelismo seria, de fato, injustificável se o Mestre não tivesse evoluído na matéria, em meios humanos (extraterrestres, no caso dele), mediante lutas e tribulações de vidas corporais...
Portanto, apenas o pressuposto rustenista da queda original do espírito na matéria, por castigo, explica estes ensinos de O Consolador. Como podem, portanto, ter base em Kardec? Se realmente foi Emmanuel quem tanto discordou da Codificação Espírita, não sei, mas é o nome dele, bem como o de Chico Xavier, que está na capa do livro.
Por fim, muito estranho é que se clame pela autoridade do mestre francês e se publiquem obras mediúnicas cujos conteúdos lhe subvertam acintosamente os princípios codificados... Extrema é a hora espírita neste mundo. Valha-nos O Espírito de Verdade!
OS INSTRUTORES DA CODIFICAÇÃO E O ESPÍRITO DE VERDADE
Pôr a descoberto a excelência da proteção dispensada aos trabalhos de Allan Kardec é fundamental à compreensão e preservação da verdadeira identidade do Espiritismo. Isto leva o adepto sincero e devotado a poderosos meios de reflexão para que conclua pela singularidade insubstituível da Obra Kardeciana, cuja margem de segurança garantiu a confiabilidade dos conteúdos obtidos e lhe confere a situação de não haver sido superada por qualquer outra a que se atribua o adjetivo “espírita”.
Nomes como São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, O Espírito de Verdade, Sócrates, Platão, Fénelon, Swedenborg — para citar apenas os que se identificam nos Prolegômenos de O Livro dos Espíritos — fizeram das obras de Allan Kardec o que a respeito delas assegurou J. Herculano Pires: “[...] foi trabalho inspirado e orientado pelas mais elevadas forças espirituais que o nosso mundo já teve a oportunidade de conhecer”. (O Espírito e o Tempo. Ruptura do arcabouço literal.)
A despeito de uma tal equipe, que contou também com São Paulo, Erasto, Hahnemann, Rousseau, Pascal, Chateaubrian, Lacordaire, Galileu, entre inúmeros outros, o processo de Codificação do Espiritismo teve uma chefia espiritual suprema: O Espírito de Verdade, guia espiritual do Codificador e, segundo A Gênese (1868), I, 41, presidente da regeneração:
“O Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda se acha por essa forma cumprida, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador”.
Todavia, Kardec afirmara em O Evangelho segundo o Espiritismo (1864), I, 7:
“O Espiritismo vem cumprir, nos tempos preditos, o que o Cristo anunciou e preparar a realização das coisas futuras. Ele é, pois, obra do Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra”.
Oras! Se entre 1864 e 1868 não houve mudança na presidência do movimento de regeneração, resta evidente que O Espírito de Verdade, guia de Kardec e presidente dessa obra, era o próprio Cristo Jesus.
Como nos informara o espírito Chateaubriand: “O próprio Cristo preside aos trabalhos de toda sorte que se acham em via de execução para vos abrirem a era de renovação e de aperfeiçoamento que os vossos guias espirituais vos predizem”. (O Livro dos Médiuns, XXXI, II.)
O Codificador foi certificando-se dessa verdade por detido juízo de comunicados e fatos, verdade com a qual lidou, aliás, muito discretamente; sem privar a posteridade, entretanto, dos preciosos informes que lhe permitem hoje compartilhar de tão consoladora evidência.
É o que se pode deduzir da nota que acresceu à comunicação datada de 09/04/1856. Na mensagem, O Espírito de Verdade lhe reitera que sua proteção se estende mesmo “às coisas materiais da vida” e lhe confessa ternamente: “[...] não te ajudar a viver, seria não te amar”.
Na nota, escrita anos depois, um Kardec agradecido e admirado assegura: “A proteção desse espírito, do qual estava longe de supor a superioridade, com efeito, jamais me faltou. Sua solicitude, e a dos bons espíritos sob as suas ordens, se estende sobre todas as circunstâncias de minha vida [...]”. (Obras Póstumas.)
Oras! O Codificador diz que veio a se surpreender com a posição de seu guia na escala espírita, posição que não supunha tão elevada, assim como revela que bons espíritos agiam sob as ordens diretas desse guia, de cuja superioridade sequer desconfiou a princípio...
Parece que chegou, desse modo, a uma convicção: a de que O Espírito de Verdade encarnara, na Terra, a figura de Jesus de Nazaré; razão pela qual assinalou a “ambos” a função de presidir a regeneração. Fora desarrazoado que não se tratasse de um único espírito...
Tanto assim que, em O Livro dos Médiuns, 48, ao repelir o sistema mono-espírito, Kardec usou como sinônimos os nomes Jesus, Cristo e Espírito da Verdade. Prova irrecusável da sua percepção sobre este assunto.
Entendimento referendado após décadas pelo instrutor Alexandre, em Missionários da Luz:
“Por que audácia incompreensível imaginais a realização sublime sem vos afeiçoardes ao Espírito de Verdade, que é o próprio Senhor?”. (Chico Xavier/André Luiz. F.E.B., cap. 9, pp. 99 ou 125.)
Não se diga, pois, que O Espírito de Verdade é um grupo, uma coletividade. Kardec já afiançara: “A qualificação de Espírito de Verdade não pertence senão a um só [...] esse espírito se comunica raramente [...]”. (Revista Espírita. Julho de 1866. Qualificação de santo atribuída a certos espíritos.)
Um espírito comunicou-se na cidade natal do Codificador, e o fez em termos contundentes aos que têm ouvidos:
“Coragem! O que foi predito pelo Cristo se deve realizar. Nestes tempos de aspiração à verdade, a luz que ilumina todo homem vindo a este mundo brilha de novo sobre vós; [...] aquele que recebeu a missão de vos regenerar retorna, e ele disse: Bem-aventurados aqueles que conhecerem o meu novo nome!”. (Revista Espírita. Março de 1868. A Regeneração. Um Espírito. Médium: Sra. B., Lyon, 11 de março de 1867.)
O espírito Erasto, discípulo de São Paulo, foi o responsável pela síntese axiomática do critério kardeciano para a Codificação: “Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea”; assim como se mostrou o mais rigoroso dos instrutores de Kardec, ao disparar:
“Devem riscar-se, sem piedade, toda palavra, toda frase equívoca e só conservar do ditado [dos espíritos] o que a lógica possa aceitar, ou o que a Doutrina já ensinou. [...] Não admitais senão o que seja, aos vossos olhos, de manifesta evidência. Desde que uma opinião nova venha a ser expendida, por pouco que vos pareça duvidosa, fazei-a passar pelo crisol da razão e da lógica e rejeitai desassombradamente o que a razão e o bom-senso reprovarem”. (O Livro dos Médiuns, 230.)
Pois bem! Este mesmo Erasto endereçou aos espíritas lioneses uma epístola que o próprio Kardec leu diante deles. No comunicado, o amigo da Codificação trata O Espírito de Verdade por “nosso bem-amado Mestre”, depois, contudo, de haver-se dirigido a Jesus chamando-o de “nosso Cristo bem-amado”. (Revista Espírita. Outubro de 1861.)
O espírito Hahnemann, que fundara a Homeopatia, em mensagem publicada por Kardec, assegura que O Espírito de Verdade “dirige este Globo”. (Revista Espírita. Janeiro de 1864. Um caso de possessão.)
A propósito de O Evangelho segundo o Espiritismo, um comunicado assinado por O Espírito de Verdade diz em termos reveladores: “Um novo livro acaba de aparecer; é uma luz mais brilhante que vem clarear a vossa marcha. Há dezoito séculos vim, por ordem de meu Pai [...]”. (Revista Espírita. Dezembro de 1864. Comunicação Espírita.)
Kardec acresce a isto nota sobre as mensagens mediúnicas que lhe eram enviadas de todas as partes e assinadas por Jesus ou por O Espírito de Verdade. Não hesita em aduzir que, salvo as evidentemente apócrifas, “posto obtidas por médiuns diferentes e em épocas diversas, nota-se entre elas uma analogia marcante de tom, de estilo e de pensamentos, que acusa uma origem única”. E sentencia sobre a que se lê acima: “Para nós, dizemos que pode ser do Espírito de Verdade, porque é digna dele”.
Seria lícito resistir a uma realidade tão francamente indicada pelo Codificador do Espiritismo? Seremos hoje mais ponderados e instruídos em Doutrina Espírita do que ele terá sido no século 19?
Dizem alguns que Jesus não poderia manifestar-se nem encarnar entre nós, porque espíritos puros não têm perispírito... Oras! Não é o que leciona o Codificador: “[...] os espíritos da categoria mais elevada podem manifestar-se aos habitantes da Terra ou encarnar em missão entre estes”. (A Gênese, XIV, 9.)
Conseqüentemente, não há que falar em ausência de perispírito nos seres que chegaram à perfeição. O Espiritismo sempre ensinou que, sim, há mundos em que os espíritos apenas têm por envoltório o perispírito, sendo exatamente esta a condição dos espíritos puros. (Cf. O Livro dos Espíritos, 186).
Kardec confirmou este conceito ao dizer: “Qualquer que seja o grau em que se encontre, o espírito está sempre revestido de um envoltório, ou perispírito, cuja natureza se eteriza, à medida que ele se depura e eleva na hierarquia espiritual”. (O Livro dos Médiuns, 55.)
S. Luís disse-o igualmente: “O perispírito passa por transformações sucessivas. Torna-se cada vez mais etéreo, até à depuração completa, que é a condição dos puros espíritos”. (O Evangelho segundo o Espiritismo, IV, 24.) Não se confunda, pois, depuração com desaparição.
Não há que duvidar também de que Jesus, para o Espiritismo, seja um espírito puro. Kardec o proclama desde a sua cautelosa nota à dissertação IX do capítulo XXXI de O Livro dos Médiuns, em que o diferencia dos “espíritos verdadeiramente superiores”, pela razão de ser o Cristo ainda mais elevado: “o espírito puro por excelência”.
Este precioso conceito, por fim, é sustentado em A Gênese, XV, 2, em que o Codificador, subentendendo que todo espírito puro é necessariamente superior mas nem todo espírito superior já é puro, afirma que Jesus dominava de modo absoluto a matéria; não era passível das fraquezas da vida corporal; não precisava de assistência; não agia como médium de outros espíritos; mais do que um profeta, era um messias divino, um espírito puro, e que, por isso, se algum influxo estranho recebia, esse só de Deus lhe poderia vir, motivo pelo qual Kardec aceitou a definição que um espírito dera de Jesus: “médium de Deus”.
Estranho é que alguns médiuns, perquiridos sobre a posição de Jesus na escala espírita, nunca recomendem, a conselho de seus idolatrados guias, a verdade da Codificação Kardeciana, preferindo retóricas de muito duvidosa humildade, que os leva a praticamente nada esclarecerem sobre o tema.
A Obra de Allan Kardec sobreleva em importância qualquer outra supostamente complementar, ou subsidiária, não só pela margem de segurança cultivada pelo mestre para constituí-la, mas pela excelência da inspiração com que pôde contar desde sempre. Mais do que respeitá-la, deve o espírita sincero e devotado observá-la; é ao próprio Cristo retornado que o fará!
ATITUDE DE AMOR
O que dizer do opúsculo Atitude de Amor, de Wanderley S. de Oliveira, pelos espíritos Cícero Pereira e “Ermance Dufaux”, trazendo instruções de “Bezerra de Menezes” e “Eurípedes Barsanulfo” para a chegada da “era da maioridade das idéias espíritas”...
Só mais um programa de subversão da ordem doutrinária kardeciana. A tática é das mais antigas — frases carregadas de chamadas moralizantes, que funcionam como “senha” cujo fim é ludibriar as inteligências menos afeitas aos conteúdos e alcances da Obra de Kardec. Assim, os absurdos introduzidos no texto podem ser acolhidos pelas almas desprevenidas, que de nada desconfiam porque ali só vêem exortações ao bem e ao amor, passando despercebida a grave e sintomática ausência da verdade.
O opúsculo elogia a “vitória” do “Pacto Áureo”, a reboque do Congresso Espírita Brasileiro de 1999, que lhe comemorou o cinqüentenário. Entretanto, critica o “labirinto de obrigações no ramerrão (rotina) do centro espírita”, e reclama da falta de “renovação” e “arejamento cultural” em nosso Movimento.
Flagrante incoerência esta! Pois o áureo golpe do presidente da Federação Espírita Brasileira à época, que se fez presidente também do novo Conselho Federativo Nacional, é que exatamente fomentou esta situação de extremo “institucionalismo” hoje lamentada, sob a inspiração constante do estatutário roustainguismo febiano, protegido pelo “Pacto” de 05/10/1949, “a bula papalina” que expandiu na nossa Seara “a primeira eclosão dos instintos vaticânicos”, como disse Herculano Pires.
Afirma-se no opúsculo em exame que Humberto Mariotti, Carlos Imbassahy, Deolindo Amorim, J. Herculano Pires e Cairbar Schutel, por exemplo, estavam presentes na tal palestra espiritual de “Bezerra de Menezes” (Atitude de Amor), assim como, entre outros cerca de cinco mil espíritos, lá se encontravam J.-B. Roustaing, Edgar Armond e até Alziro Zarur. Pura ficção! Não apenas porque Zarur mais não foi do que Roustaing no séc. 20, mas igualmente pela razão de que os cinco primeiros só se reuniriam aos demais para esclarecer a estes o que representa de fato o Espiritismo.
Não admira, pois, que Atitude de Amor advogue hoje exatamente as antigas teses dissolventes dos três últimos e de seus similares, defendendo que os centros espíritas deveriam formar “pólos de congraçamento ecumênico para os espíritas com diversidade de idéias”, “cooperativas de afeto cristão” onde imperaria “o regime do mais livre pluralismo de concepções acerca dos postulados espíritas”, “pluralismo filosófico e doutrinário”, que resultaria da “redução do institucionalismo na administração” dos centros. Em suma: engendrar uma nova LBV.
Isto se justificaria pela suposta necessidade urgente de os espíritas se habituarem a ter suas “certezas abaladas pelo conflito e pela permuta”, para que “ampliem a capacidade de enxergar com mais exatidão as questões que supõem ter sido esgotadas” e, desse estouvado modo, se livrem das “masmorras do autoritarismo institucional” e de “uma verdade exclusivista”, “atualizando conceitos”, “criando ensejos ecumênicos” e “uma atitude de alteridade”, o que conduzirá ao “ecumenismo” entre “as várias tendências da Seara”.
Combater o institucionalismo é uma coisa; tramar a morte lenta da Doutrina Espírita é outra muito diversa. Note-se que qualquer concepção passa a ser parte do próprio Espiritismo, à revelia da unidade doutrinária estabelecida pela Obra de Kardec. Mesmo os postulados fundamentais desta Obra deveriam ser submetidos, imaginem, a um “pluralismo de concepções”.
Na prática, então, tudo bem se entenderem que a reencarnação resulta de uma queda primordial do espírito; tudo bem se preconizarem que o tal Espírito Regenerador inspirará especialmente o Papa católico a fim de que os fenômenos mediúnicos deixem de ser “fatos isolados, estranhos à ordem comum”, conforme fazem os roustainguistas, por exemplo, pois, em nome do amor e da alteridade, isso passa a ser Espiritismo também; afinal, o que importa é ser pluralista e afetivo...
Como se o único jeito de cultivar estas duas incontestes virtudes fosse diluindo a identidade doutrinária kardeciana do Espiritismo. Como se as verdadeiras casas espíritas, que são orientadas pelo Evangelho de Jesus à luz da Obra de Kardec, não se tornassem por este fato em “cooperativas de afeto cristão”... Que injustiça!
Efeitos dessa bagunça ideológica fantasiada de Atitude de Amor foram as proposições antagônicas atribuídas a Eurípedes Barsanulfo, após pergunta que teria sido formulada por Ermance Dufaux, sobre a importância da assim chamada “pureza” doutrinária (preferimos “fidelidade” doutrinária).
Inicia-se dizendo que “toda doutrina precisa ter identidade, e quando se defende pureza, nesse sentido, é uma ação necessária e justa”; todavia, finaliza-se desqualificando essa mesma ação tão necessária e tão justa, porque a “pureza filosófica desune” e só “a pureza do coração sublima”...
Como se os que defendessem a “pureza” doutrinária jamais alcançassem por esta razão a graça da “paz interior” e do “coração sublimado”. A primeira excluiria forçosamente os demais. Tese, aliás, dominante no opúsculo, que almeja, assim, a paralisação de toda e qualquer atitude analítica, crítica, por constituir prática de desamor que acarreta esta punição: o silêncio no Além. Sim! Por tal razão seria interdita aos espíritos dos “puristas” a comunicação mediúnica. Pueril esta hipótese e, ao demais, falsa. Mas o tal Eurípedes decreta, ameaçador e generalizante:
“A condição das almas que conheceram o Espiritismo e galgaram a responsabilidade de formadores de opinião, detendo influência e poder de decisão, inteligência e visão ampliada, é a daquele servo da parábola dos talentos que enterrou o tesouro generoso concedido pelo Senhor, com medo das lutas que enfrentaria na ingente batalha consigo próprio”.
Todos os formadores de opinião, portanto, serão apenados pelo crime de bem conhecerem o Espiritismo sem se omitirem ante a responsabilidade de comunicá-lo aos menos esforçados ou menos evoluídos. Supõe-se, assim, que devem estes formadores de opinião lutar apenas contra si mesmos, amordaçados pelo medo de pecar.
Como se a simples exposição da verdade em meios adversos, a exemplo do próprio Jesus, não ensejasse as mesmas lutas aos seus discípulos, sobretudo contra o comodismo da falsa paz interior, permeada de nossos costumeiros subterfúgios conscienciais, filhos diletos da lei do menor esforço... Discernir a verdade exige muito trabalho e sensibilidade; confundi-la não exige nada. No final, os que não atentam para isto não conseguem ser santos, nem sequer sábios.
Atitude de Amor ainda coloca nos lábios de Eurípedes este absurdo conceitual, mas que é conseqüência da tese estapafúrdia que o opúsculo veicula:
“Imperioso que tomemos por base que Espiritismo é toda forma de interpretação que possibilite ao homem a sua espiritualização e melhora nos campos do bem, sem almejar confiná-lo aos estreitíssimos catres ideológicos”.
Qualquer proposta espiritualizante seria, então, Espiritismo. E este? Afinal é uma ideologia tão estreita assim? Sobre isto, dever-se-ia citar o Kardec integral, moralizante e doutrinário a um só tempo, porquanto as duas coisas são complementares na proposta espírita bem compreendida:
“[...] os adeptos de tal modo aproveitaram o que o Espiritismo até hoje ensinou, que nada mais tenham a fazer? [...] são tão perfeitos que de agora em diante seja supérfluo pregar-lhes a caridade, a humildade, a abnegação, numa palavra, a moral? Essa pretensão, por si só, provaria quanto ainda necessitam dessas lições elementares, que alguns consideram fastidiosas e pueris. É, entretanto, só com o auxílio dessas instruções, se as aproveitarem, que poderão elevar-se bastante para se tornarem dignos de receber um ensinamento superior. [...] uma ciência nova, que dá tantos resultados em menos de dez anos, não pode ser acusada de nulidade, porque toca em todas as questões vitais da humanidade e traz aos conhecimentos humanos um contingente que não é para desdenhar. Até que esses únicos pontos tenham recebido todas as aplicações de que são susceptíveis, e que os homens os tenham aproveitado, ainda se passará muito tempo, e os espíritas que os quiserem pôr em prática para si próprios e para o bem de todos não ficarão desocupados”. (Revista Espírita. O Que Ensina o Espiritismo. Agosto de 1865.)
Ante a lucidez destas ponderações do mestre lionês acerca de sua Obra, a que ficam reduzidas tão tresloucadas reivindicações de “renovação”, “atualização” e “arejamento”? Pois se está claro que sequer bem conhecemos e, menos ainda, executamos a própria Codificação...
Ao término da palestra do tal Bezerra para cerca de cinco mil espíritos, assegura-se muito sintomaticamente que “J.-B. Roustaing foi um dos mais procurados para o abraço afetivo e a palavra amiga, cercado por amigos da Itália (terra de P. Ubaldi) e da França”.
Ora! Este advogado francês foi o primeiro subversor da ordem doutrinária espírita. Acusou Kardec ferinamente de ostracismo, ignorância e infalibilidade. Ousou até chamá-lo de “senhor feudal” e “chefe de um espiritismo de fantasia”. Bem o sabem os que puderam ler o antigo prefácio de Os Quatro Evangelhos amputado pela FEB há décadas.
Ali, o Dr. Roustaing e seus enfurecidos discípulos proclamam não apenas o seu cismazinho particular como encontram tempo para incentivar os demais cismas, em nome exatamente deste tipo de proposta ecumênica que dissolveria o Espiritismo, e que agora é postulada por Atitude de Amor, em completo detrimento dos últimos esforços kardecianos de advertência contra as cisões na Doutrina. Kardec foi bem explícito quanto a isto e não há razão para desrespeitá-lo citando-o de forma manipulante:
“Para assegurar-se, no futuro, a UNIDADE, uma condição se faz indispensável: que todas as partes do conjunto da Doutrina sejam determinadas com PRECISÃO E CLAREZA, SEM QUE COISA ALGUMA FIQUE IMPRECISA. Para isso, procedemos de maneira que os nossos escritos não se prestem a interpretações contraditórias e cuidaremos de que assim aconteça sempre. [...] SEITAS PODERÃO FORMAR-SE AO LADO DA DOUTRINA, SEITAS QUE NÃO LHE ADOTEM OS PRINCÍPIOS OU TODOS OS PRINCÍPIOS, PORÉM NÃO DENTRO DA DOUTRINA, por efeito de interpretação dos textos. [...] Tomando a iniciativa da constituição do Espiritismo, usamos de um direito comum, o que todo homem tem de completar, como o entender, A OBRA QUE HAJA COMEÇADO e de ser JUIZ DA OPORTUNIDADE. Desde o instante em que cada um é livre de aderir ou não a essa obra, ninguém se pode queixar de sofrer uma pressão arbitrária. CRIAMOS A PALAVRA ESPIRITISMO, para atender às necessidades da causa; TEMOS, pois, O DIREITO DE LHE DETERMINAR AS APLICAÇÕES E DE DEFINIR AS QUALIDADES E AS CRENÇAS DO VERDADEIRO ESPÍRITA”. (Obras Póstumas. Segunda parte. Constituição do Espiritismo. II e X. Maiúsculo nosso.)
Posto isto, como falar em “regime de livre pluralismo de concepções acerca dos postulados espíritas”, ou “pluralismo filosófico e doutrinário”, ou “ecumenismo” entre “as várias tendências da Seara”? Acaso faltam à Obra de Kardec a clareza e a precisão necessárias para uma unificação de nossas idéias e práticas? Ou nós é que nos entregamos a insubmissões injustificáveis em nome de uma vaidade irrefreável?
Na verdade, tudo o que Atitude de Amor pretende dispensa qualquer ingerência de outras doutrinas ou de seus respectivos adeptos em nossa Seara Espírita, a qual já se esforça, sim, por praticar o “Fora da Caridade Não Há Salvação”, ainda que com as deficiências peculiares, aliás, a quaisquer outros movimentos (os ecumênicos, inclusive).
O perigo é que esta proposta pseudo-espírita aparece colocada nos lábios de Bezerra, Eurípedes e Ermance, mas Roustaing e Ramatis é que ali falam todo o tempo.
O Bezerra improvisado de Atitude de Amor não hesita sequer em elogiar a si mesmo: “Todos aqui, mormente os que se acostumaram À DOCILIDADE E TERNURA DE MEU CORAÇÃO [...]”. E ainda ousa assegurar que a “clareza e definição” de sua “fala” “são em obediência incondicional e servil a ordens maiores”, “em nome do Espírito Verdade”...
Para este Bezerra, tornar-se um tipo de salada mista new age salvaria o Movimento Espírita do “institucionalismo”. Completo equívoco. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Para que chegue a “era da maioridade das idéias espíritas”, o comando do verdadeiro Bezerra é que deve ser obedecido, e este é em tudo oposto ao “pluralismo filosófico e doutrinário”, porquanto assim se exprime:
“Jesus nos trouxe a Verdade; Kardec, porém, nos trouxe a interpretação. KARDEQUIZAR É A LEGENDA DE AGORA! Kardequização da filosofia: discernimento; da fé: racionalidade. Kardequizemos para evoluir com acerto à frente do Cristo de Deus. Kardequizemo-nos na carteira de obrigações a que estamos transitoriamente jungidos: é a forma ideal de ascenção”. (Médium: Chico Xavier. “Kardec e Vida, Página aos Espíritas”.)
Na ocasião, o presidente da FEB roustainguista censurou o Espírito Bezerra de Menezes, afirmando que kardequizar seria sectarizar, exatamente neste tom ecumênico dissolvente de Atitude de Amor, que faz agora a propaganda de Roustaing ao mesmo tempo em que critica o institucionalismo da FEB... As criaturas voltaram-se contra o seu criador. Perigo maior à vista. Quando os “kardecistas” acomodados da FEB acordarem, talvez seja tarde demais, e já faça parte do passado a morna dicotomia “Kardec versus Roustaing” entendida apenas como “corpo físico versus corpo fluídico”, porque terá dado lugar a algo ainda pior: a transformação da FEB, que, bem ou mal, é a mais poderosa Casa Espírita do planeta, num frankeinstein elebevista. Que O Espírito de Verdade nos preserve de mais esta provação!
De nossa parte, só criticamos bem intencionadamente a falta de fidelidade a Kardec, expressa nas ações decorrentes da presença de Roustaing como norma estatutária da FEB. Se esta optasse clara e decididamente pelo primeiro, só nos restaria lutar juntos pela execução plena da Obra de Kardec, o que, por si só, dispensaria qualquer proposta marginal de indevida ingerência em nossa Seara.
O pluralismo deve ser cultivado no campo relacional do respeito mútuo, não propriamente na esteira da conceitualidade dos postulados, isto é, dos princípios espíritas, na qual nossa identidade doutrinária kardeciana desfila como diferença legítima e necessária, ali posta em movimento a duras penas pelo Gênio lionês, num regime, aliás, que prevê sua autocrítica, sem, contudo, tramar seu próprio suicídio.
“Ao invés de ser absorvido, o Espiritismo absorverá”, disse Kardec; um absorver, porém, seletivo, e não sincrético. Nossa identidade, portanto, deve ser sustentada em momentos e espaços apropriados, num clima de coerência, sobriedade e equilíbrio, o que seria impossível ao influxo de aventuras experimentais que logo degenerariam em confusão e desorientação generalizadas, culminando na desaparição do Espiritismo propriamente dito.