O futuro da Doutrina...
Kardec portando um de seus livros
[...] os adeptos de tal modo aproveitaram o que o Espiritismo até hoje ensinou, que nada mais tenham a fazer? [...] são tão perfeitos que de agora em diante seja supérfluo pregar-lhes a caridade, a humildade, a abnegação, numa palavra, a moral? Essa pretensão, por si só, provaria quanto ainda necessitam dessas lições elementares, que alguns consideram fastidiosas e pueris. É, entretanto, só com o auxílio dessas instruções, se as aproveitarem, que poderão elevar-se bastante para se tornarem dignos de receber um ensinamento superior.
[...] uma ciência nova, que dá tantos resultados em menos de dez anos, não pode ser acusada de nulidade, porque toca em todas as questões vitais da humanidade e traz aos conhecimentos humanos um contingente que não é para desdenhar. Até que esses únicos pontos tenham recebido todas as aplicações de que são susceptíveis, e que os homens os tenham aproveitado, ainda se passará muito tempo, e os espíritas que os quiserem pôr em prática para si próprios e para o bem de todos, não ficarão desocupados.
[...] O Espiritismo deu sucessivamente e em alguns anos todas as bases fundamentais do novo edifício. Cabe agora a seus adeptos pôr em obra esses materiais, antes de os pedir novos. Deus saberá bem lhos fornecer, quando tiverem completado sua tarefa.
Dizem que os espíritas só sabem o a, b, c do Espiritismo. Seja. Para começar, então, aprendamos a soletrar esse alfabeto, o que não é problema de um dia, porque, reduzido mesmo a só estas proporções, passará muito tempo antes de haver esgotado todas as combinações e recolhido todos os frutos. [...]
Saibamos, pois, soletrar o nosso alfabeto antes de querer ler corretamente no grande livro da natureza. Deus saberá bem no-lo abrir, à medida que avançarmos, mas não depende de nenhum mortal forçar sua vontade, antecipando o tempo para cada coisa. Se a árvore da ciência é muito alta para que possamos atingi-la, esperemos para voar sobre ela que as nossas asas estejam crescidas e solidamente pregadas, para não termos a sorte de Ícaro.
(Allan Kardec. Revista Espírita. O Que Ensina o Espiritismo. Agosto de 1865.)